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Psicólogos e psiquiatras destacam que é possível se livrar do vício, mas que o ideal é não se render a ele - (crédito: Valdo Virgo)
O vício em jogos, principalmente apostas on-line, atinge cerca de dois milhões de brasileiros, segundo estudo da Universidade de São Paulo (USP). O Banco Central estima que o brasileiro gaste R$ 20,8 bilhões por mês em jogos de azar e apostas. Especialistas em saúde mental destacam que, entre idosos e adolescentes, o problema é mais crítico, devido a vulnerabilidades sociais e neurobiológicas. O Correio traz histórias de brasilienses que tiveram graves problemas financeiros e emocionais por conta deste vício.
Osmar* (nome fictício) tem 49 anos, morador do Recanto das Emas, e está aposentado por invalidez, por ter adquirido um problema na mão esquerda. O tempo ocioso e a falta de dinheiro fez com que ele passasse a acessar sites de apostas on-line e investir o pouco dinheiro de sua aposentadoria na tentativa de ganhar mais. "Comecei em 2020 e, no início, conseguia controlar, mas depois de um tempo, passei a fazer empréstimos para conseguir apostar", conta. "Passava a jogar mais para tentar quitar as dívidas que iam ficando. Depois que o banco bloqueou empréstimos para mim, fiz um cartão de crédito. Hoje, tenho R$ 7 mil de dívida no cartão", completa.
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Como última tentativa de quitar a dívida, Osmar apostou R$ 120 em um jogo on-line. "Eu acabei ganhando uma bolada, R$ 169 mil, mas fui enganado e não consegui sacar. Registrei um boletim de ocorrência e precisei acessar a Defensoria Pública, mas nunca consegui o dinheiro", relata. "A plataforma ficava pedindo que eu depositasse mais dinheiro para que eu, teoricamente, subisse de nível e conseguisse sacar o dinheiro", explica. Ontem, ele abriu um boletim de ocorrência numa delegacia.
Coordenadora do curso de psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Ana Cristina Oliveira avalia que o investimento em jogos de azar passa a ser motivado por um desejo constante de recompensa. "Mesmo diante de uma perda ou frustração, a pessoa segue acreditando que a recompensa virá, tornando-se cada vez mais dependente da excitação e expectativa geradas pela promessa de ganho rápido que a aposta proporciona", analisa.
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Gustavo* (nome fictício), 25, morador do Plano Piloto, ficou desempregado por causa do vício. "Ele perdeu o controle sobre o tempo e sobre o dinheiro que investia na situação, de modo que passou a negligenciar suas relações afetivas e de trabalho. Começou a ter vontade de parar, mas se sentia compelido a seguir jogando, na esperança de que seria 'a última vez'", afirma o psiquiatra do Hospital Sírio-Libanês que tratava Gustavo, André Botelho. "Ele passou a ficar irritado com sua escravidão emocional e, principalmente, tinha crises de ansiedade e raiva quando ficava sem jogar. Isolou-se da família, terminou o relacionamento, perdeu o emprego e contraiu diversas dívidas por empréstimos com agiotas para sustentar o jogo", diz o médico, preservando o nome do paciente.
O psiquiatra André Botelho comenta que o vício em jogos pode trazer prejuízos em diversas áreas da vida. "O transtorno do jogo patológico é um quadro psiquiátrico que é multifacetado. É preciso um tratamento integrado e próximo, que auxilie o indivíduo a um maior controle dos impulsos mas também um reencontro com o seu eu e com o amor-próprio. O tratamento padrão ouro é a integração do tratamento farmacológico, da psicoterapia e de modificações ambientais e de estilo de vida", esclarece.
Delegado da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) especializado em investigação de golpes on-line, Erick Sallum, observa que está cada vez maior o número de pessoas com problemas na Justiça por conta de dívidas de jogos de azar. "O que vemos pela nossa prática policial de forma muito significativa é muita gente que deixa de pagar contas pessoais como pensão alimentícia para apostar. As pessoas têm a ideia de que vão ficar ricas do dia para a noite, mas nós sabemos que o algoritmo das plataformas de apostas são programados para gerar mais prejuízo do que lucro", enfatiza.
Grupos vulneráveis
Especialistas apontam uma preocupação maior com idosos e adolescentes viciados em jogos de azar. Psicólogo do grupo Mantevida, Wanderson Neves pontua que fatores psicossociais e fisiológicos os tornam mais suscetíveis a desenvolver comportamentos aditivos. "Muitos idosos enfrentam solidão, especialmente após a perda de cônjuges, amigos ou familiares. O isolamento pode levar a uma busca por distrações e entretenimento, o que pode incluir as apostas on-line ou jogos de cassino, que oferecem a ilusão de socialização ou emoção", ressalta. "No caso dos adolescentes, eles estão em uma fase de descobertas e buscam constantemente novas experiências e sensações intensas. O vício em apostas pode ser visto como uma maneira de satisfazer essa necessidade de emoção, especialmente em ambientes on-line, onde as apostas podem ser feitas de forma anônima e fácil", complementa.
O psiquiatra André Botelho explica ainda que, no caso dos adolescentes, devido ao seu desenvolvimento neurocognitivo, que ainda está em formação, estão mais propensos a comportamentos impulsivos e à busca por recompensas imediatas. "Além disso, a exposição a jogos on-line e a normalização das apostas em diversas plataformas digitais aumentam o risco de desenvolvimento de vícios nessa faixa etária", comenta.
Caminhos
Psicólogos e psiquiatras destacam que é possível se livrar do vício, mas que o ideal é não se render a ele. "A psicoterapia ajuda a entender os motivos por trás da compulsão e a desenvolver novas formas de lidar com o prazer e o estresse. Além disso, é importante trabalhar o controle do impulso, estimular o envolvimento em outras atividades prazerosas e usar técnicas para ajudar na regulação emocional. O apoio da família também faz toda a diferença, criando um ambiente mais equilibrado para esse processo", aponta a psicóloga Juliana Gerbrim.
"Para livrar esses grupos da dependência, é crucial implementar programas de conscientização e educação que abordem os riscos associados ao jogo, além de oferecer tratamentos adequados que contemplem uma abordagem biopsicossocial", sugere o psiquiatra André Botelho. "Além disso, a criação de grupos de apoio, que incentivem outras formas de lazer e interação social, também é fundamental para ajudar tanto adolescentes quanto idosos a desenvolver hábitos saudáveis e a evitar o vício em apostas", ressalta Botelho.
Economia
De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o grande número de brasileiros investindo em jogos de apostas tem refletido negativamente na economia. A instituição apresentou Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a "Lei das Bets", sancionada em 2023, que regulamenta apostas esportivas on-line. Segundo a confederação, desde que a lei foi aprovada, aumentou o nível de endividamento das famílias em razão de comportamentos financeiros de alto risco.
A instituição alega ainda que o comércio varejista sofreu impacto significativo. Levantamento feito pela CNC mostra que o setor enfrentou perda de R$ 103 bilhões do faturamento anual potencial com o redirecionamento dos recursos das famílias para os jogos. Outro argumento é o de que a legalização deste tipo de apostas vem contribuindo também para a participação de crianças e adolescentes, já que o principal meio de acesso às plataformas de apostas é o celular.
Proposta
Tramita na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) um projeto de lei que propõe instituir o Programa de Combate ao Vício em Apostas e Jogos, no âmbito do DF. O programa tem o objetivo de prevenir a dependência em jogos de azar, conscientizar a população sobre cuidados com apostas esportivas físicas e virtuais, combater práticas abusivas que incentivem a adição, auxiliar quem sofre com o vício, assim como apoiar técnica e financeiramente entidades que trabalham na recuperação de dependentes em apostas.
O projeto também propõe que o GDF implemente um Cadastro Distrital de Combate ao Vício em Apostas, para inibir campanhas e divulgações ostensivas das casas de aposta às pessoas vulneráveis. Além disso, empresas de apostas, aplicativos e cassinos deverão expor, de forma clara e visível, instruções sobre sistemas de bloqueio de contas e a indicação de locais e entidades que auxiliam no tratamento da ludopatia.
Duas perguntas para
Ana Cristina Oliveira, coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Católica de Brasília
Como identificar que a prática de apostar se tornou um vício? Quais os sinais?
A mudança de comportamento, muitas vezes radical, é o melhor termômetro para identificar que algo não vai bem. No caso de um comportamento que sinalize algum tipo de dependência é comum que a pessoa não consiga mais realizar as atividades cotidianas no mesmo ritmo ou com a mesma qualidade. Realiza-se um deslocamento da energia empregada nas realização das ações rotineiras para aquela atividade que promete uma satisfação rápida e imediata e que por isso tem um alto potencial para se tornar um "vício". Assim a dependência vai se tornando característica, na medida em que o comportamento de apostar passa a ser a principal atividade da pessoa, ou onde ela concentra toda a sua energia e investimento. Ela começa a se sentir ansiosa esperando pelo momento do jogo e da aposta, a irritação com outras atividades que a afastem desse comportamento começa a se tornar recorrente e ela desinveste em outras relações e atividades para investir exclusivamente no comportamento de jogar e apostar.
Qual o principal sinal de alerta de que alguém está se tornando viciado em apostas?
Todos nós podemos contribuir nesse sentido, basta observar se alguém próximo apresenta sinais de mudança de comportamento que comecem a comprometer suas relações e atividades cotidianas motivadas pelo comportamento da aposta. Esse pode ser um sinal de alerta que merece uma intervenção no sentido de um "toque" para o colega ou familiar, de que aquele comportamento começa a se tornar excessivo. É o excesso que poderá se tornar prejudicial, no sentido do desenvolvimento de uma dependência, na medida em que a pessoa perde o controle sobre suas escolhas e ações em prol do jogo e das expectativas que a aposta oferece.
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