Volta às aulas: desigualdade social é o maior desafio do ensino remoto

Professores e especialistas avaliam que nem todos os alunos têm acesso às plataformas de educação a distância ou possuem um suporte adequado para a aprendizagem. Com a pandemia, a população percebeu a importância dos educadores

Volta às aulas: desigualdade social é o maior desafio do ensino remoto

Edis Henrique Peres

Isabela Almeida, de 6 anos, se adaptou bem ao ensino remoto - (crédito: Arquivo pessoal) Isabela Almeida, de 6 anos, se adaptou bem ao ensino remoto - (crédito: Arquivo pessoal) As atividades presenciais na rede pública de educação retornam nesta quinta-feira (5/7), com o encontro pedagógico de professores. Nos próximos dias, voltam de forma escalonada os alunos, em regime híbrido, com metade deles em sala de aula, e a outra a distância. No entanto, a desigualdade social é um desafio que impede o ensino remoto alcançar de forma igual os estudantes da rede pública, avaliam professores e especialistas. Francineide Azevedo Medeiros, vice-diretora da CEF 203, avalia que a desigualdade causou um grande prejuízo na unidade. “Cerca de 40% dos estudantes das redes públicas ficaram totalmente alheios ao ensino remoto. Por enquanto, nessa semana pedagógica, estamos realizando uma reformulação dos bimestres em cima do retorno. Essa oportunidade de estar com os alunos presencialmente será uma oportunidade para diminuir o dano e oferecer um suporte maior a eles”. A profissional também avalia que a crise deixou, como legado, o avanço tecnológico na formação dos profissionais. “Eles tiveram que se adaptar, se adequar ao ensino remoto de forma muito rápida. Sem dúvida, há muito que pode ser aprimorado nesse período”, destaca. Para Catarina de Almeida Santos, especialista em educação e professora da Universidade de Brasília (UnB), muitos alunos não tiveram acesso ao ensino, porque não tinham tecnologia, pacote de internet ou outro suporte. “Aqueles que recebiam materiais impressos não tinham contato em tempo real com o professor, muitas vezes não tinham um familiar em casa que pudesse orientar o desenvolvimento das tarefas. Por isso, nesta retomada, os professores terão que fazer uma avaliação de cada estudante, para verificar o quê de aprendizagem que precisa ser recuperado”, avalia. Para alguns pais, o retorno presencial é uma oportunidade de corrigir o atraso de ensino dos filhos. Entre os muitos aprendizados desse período, Jéssica Silva de Carvalho, 27 anos, moradora de São Sebastião, dona de casa e mãe de dois filhos, Aylla, 7, e Nycolas, 5, destaca a importância dos profissionais da rede de ensino. “Os professores e a direção da escola estavam muito prestativos com meus dois filhos. O Nycolas ainda tem muita dificuldade com a plataforma. Não tenho computador em casa, só um celular, e isso dificultou um pouco. O que melhorou a adaptação deles foi a disponibilização do material impresso pela escola”, pontua. Para Jéssica, a participação dos pais foi um ponto positivo durante esse processo. “Já fui educadora social voluntária em 2018 e 2019, e via que a participação dos pais era muito escassa. Com a pandemia, meio que houve esse incentivo para que todos participassem mais”, destaca. Risco Naliana Silva Almeida, 39 anos, autônoma e moradora de Águas Claras, avalia que a crise sanitária ainda impõem um risco na volta às aulas. A mãe faz parte de um grupo de pais que luta pela não obrigatoriedade do retorno presencial. “Falta uma opção para as famílias que querem continuar de casa, porque muitos têm essa possibilidade, afinal a pandemia ainda não acabou e os números de casos sobem e descem a todo momento. A variante Delta também preocupa”, informa. A profissional autônoma opina que faltou suporte do governo para os mais vulneráveis. “A gente entende que muitos pais precisam da infraestrutura da escola, e faltou do governo que ele fizesse algo para tentar diminuir essa perda pedagógica. Muitos não têm acesso à internet nem a celulares”, destaca. Naliana informa que para facilitar a adaptação da filha, Isabela, 6, no ensino remoto, adotou uma rotina. “Nos primeiros dias, ela sentia falta das escolas, mas se adaptou super bem. O que ajudou foi ter um horário para entrar no computador, para ter a aula on-line, uma rotina para seguir. E claro, a gente percebeu que o trabalho dos professores triplicou nesse período, porque sempre estavam atentos às dúvidas dos alunos e pais”, pontua. Devido a esses desafios, Rosilene Corrêa, presidente do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), informou que a categoria aprovou, no último sábado, um indicativo de greve. “O indicativo estabelece a possibilidade de se ter uma greve, no sentido de colocar em estado de alerta. Nós estamos acompanhando as condições desse retorno, e, não havendo condições, a gente precisa ter uma saída. Agora, a ideia é que seja uma construção e caso haja necessidade de suspender esse retorno, que seja uma greve da escola, e não só dos professores. Por isso, a orientação é que a escola promova reuniões com os pais”, frisa. Passe Livre Com o retorno presencial da rede pública, o Passe Livre Estudantil voltará a funcionar. Para garantir o benefício, os estudantes precisam atualizar o cadastro no site https://mobilidade.brb.com.br/mobilidade/ ou no aplicativo do BRB Mobilidade. Também é necessário verificar se o nome do aluno consta na lista enviada pela escola. Em caso de dúvidas é possível buscar atendimento no telefone (61) 3120-9500. Ao todo, o DF tem nove postos físicos de atendimento ao estudante. Confira em https://mobilidade.brb.com.br/ mobilidade/mapas.html.