Brasília: cidade que acolhe sonhos

Entre os setores que mais cresceram desde o início da crise sanitária, estão promoção de vendas, varejista de vestuário e acessórios

Brasília: cidade que acolhe sonhos

“Sempre foi meu sonho abrir uma loja de doces saudáveis. Como eu amo cozinhar, e estava precisando de uma renda, não pensei duas vezes”, conta Judy Fernandes. Aos 24 anos, a moradora de Planaltina DF deu vida, em 21 de Maio de 2021, ao “Doce de Leve”, confeitaria saudável e inclusiva que agrada qualquer paladar. A empreendedora é uma dos 62.064 brasilienses que quebrou paradigmas e se arriscou no mundo dos negócios. O número é da Junta Comercial e corresponde ao período do início da pandemia, em 2020, até a primeira quinzena de maio de 2021. Entre os setores que mais cresceram desde o início da crise sanitária, estão promoção de vendas, varejista de vestuário e acessórios, fornecimentos de alimentos para consumo domiciliar, restaurantes e similares e cabeleireiro, manicure e pedicure. Estando no ramo alimentício, Judy diz que, mesmo em meio a um período como o de pandemia, conseguiu ter um bom retorno com sua lojinha online. “Principalmente em datas festivas. Nessas épocas aproveitamos para dar o maior foco, trazendo novos doces para conquistar mais clientes e, consequentemente, ter um bom feedback”, conta a empresária. Como comenta o superintendente do Sebrae no DF, Antônio Valdir, ao longo do tempo, mudou-se o perfil de carreira profissional do brasiliense. Antes, de acordo com ele, o sonho era construído em cima da esperança em alcançar uma vaga no serviço público. Hoje, ter um negócio próprio chama mais atenção. “Quem saiu da universidade nos últimos anos é de uma geração que tem o empreendedorismo como alternativa”, comenta. Um fator decisivo nessa vontade, de acordo com o titular, é, também, a questão da crise, que impulsionou parte dessas pessoas. “Costumo dizer que, na crise, o empreendedorismo sai da mão do acomodado e vai para a mão daquele que se ajustou ao mercado. A crise sempre é um bom momento”, declara Antônio. PUBLICIDADE Quem também, motivada pela necessidade de renda, deu as caras e se arriscou no mundo do empreendedorismo em plena pandemia foi a jovem Rafaela Oliveira. Também moradora de Planaltina, a estudante de gestão ambiental cresceu observando os pais, que são comerciantes, e aos 22 anos, abriu sua própria loja. “No Vila Empório temos itens de suplementação, alimentos naturais e bebidas destiladas, como vinhos, whisky e outros. “Eu e minha família precisávamos de uma renda, já que nossa fonte principal não estava podendo funcionar devido a pandemia. Foi assim que surgiu a ideia de abrir um pequeno empório com tudo que estava ao nosso alcance”, relembra Rafaela, ressaltando que, hoje, é sua principal fonte de renda. Foto: Arquivo Pessoal Abraçada de primeira pela clientela, Rafaela Oliveira conta que, para que seu negócio gerasse bons frutos investiu em boa divulgação e produtos essenciais e de qualidade. “Divulgo e espalho meu projeto pelas mídias digitais, pois hoje são as ferramentas mais valiosas que temos. Além disso, invisto bastante na identidade visual e no branding da minha marca, para que, cada vez mais, o público alvo se identifique com ela”, revela a empreendedora. Tais estratégias, de acordo com Juliana Nóbrega, professora de Marketing no CEUB, são, hoje, as principais para o sucesso de um negócio. Conforme destaca a docente, este é um dos pilares do sucesso de um empreendimento, que consistem em conhecimento de planejamento, gestão, marketing e finanças. “E o 5g está em curso, é uma onda que trará uma revolução absolutamente impactante. Quem não compreender as questões que estão postas, certamente não permanecerá por muito tempo”, pontua. As empresas, como salienta Juliana, precisam estar em contínua mudança, para que não se tornem estéreis, e há, também, uma grande resistência à transformação digital, não só para assimilar novas tecnologias, mas para assimilar uma nova forma de pensamento. “Muitos empresários têm resistência à mudança, e a pandemia só evidenciou e fragilizou de vez os negócios que não possuíam uma cultura adaptativa e aprendente. Houve um tempo em que uma estratégia e um posicionamento se mantinham perenes em relação ao tempo, mas essa Era acabou”, salienta. Sabendo disso, assim como Rafaela, Judy também mantém sua marca sempre ativa na internet. “Hoje o instagram nos dá um leque de possibilidades para atingir novos seguidores e compradores. Temos pessoas muitos especiais responsáveis por tirar fotos incríveis para compartilhar com nossos clientes e, assim, construir feed atrativo”, compartilha a confeiteira. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE Empreender é amar… Outra candanga que não teve medo de dar vida ao seu sonho mesmo diante de uma crise como a dos últimos dois anos, foi Nathália Lott. Aos 31 anos, Nath é dona do ‘B de Berenice’, uma cafeteria aconchegante localizada na Asa Norte. Diferentemente de Judy e Rafaela, Nathália conta já ter trabalhado com vendas antes, mas que, foi ao abrir as portas do seu café, que teve, pela primeira vez, algo para chamar de seu. “Estive no mercado de trabalho por muito tempo, principalmente no campo de vendas e atendimento e nem sempre tive sorte. Encontrei alguns lugares que foram muito tóxicos e relações trabalhistas muito ruins. Precisava encontrar um novo caminho realmente positivo para mim”, conta. Foto: Arquivo Pessoal Foi dessa motivação que, em 2021, Nathália abriu as portas de um negócio que sempre a atraiu. “Sempre amei tardes em cafeterias e um bom café feito na hora. Juntei toda essa energia para me jogar na oportunidade de criar o B de Berenice. O B nasceu da vontade de largar um passado que não me merecia e criar uma nova vida onde tudo é feito com muito amor”, conta. Tal paixão, na avaliação da professora de marketing, é essencial para dar início a vida empreendedora. “Costumo dizer que a área mais vantajosa para abrir um empreendimento é aquela que faz o olho brilhar, os pelos do braço arrepiar, e que faz o empreendedor dormir bem a cada noite, apesar de todos os desafios. O pré-requisito para fazer um negócio dar certo tem mais a ver com paixão do que com a potencialidade do setor. Não dá pra sustentar uma empresa sem acreditar no que se faz, sem paixão”, afirma a docente. Paixão também foi a motivação de Sullen Martins, que decidiu transformar um hobby em fonte de renda. Trabalhando com saboaria artesanal criativa desde os 14 anos, a moradora do Lago Norte diz que o ‘Cheirinho de Princesa’, nasceu em um momento crítico de sua vida. “Quando eu era mais nova, tinha muita dificuldade de socializar na escola e sofria muito bullying. Minha mãe ia até lá durante o intervalo para ficar comigo e, um certo dia, ela me mostrou dois vídeos: um de biscoitos artesanais e o outro de sabonetes artesanais. Me apaixonei de cara”, rememora a artesã. Para se distrair, ela começou a fazer o que tanto fez seus olhos brilhar, até perceber um certo interesse das pessoas que a cercavam. “As pessoas da minha família viam e se interessavam pelos sabonetes, e começaram a comprar mesmo sem eu ter a intenção de vender. Com o passar do tempo, eu acabei encontrando uma oportunidade não só de fazer algo que eu gostasse, mas algo que me desse um retorno financeiro”, acrescentou. Foto: Arquivo Pessoal Vendo o sucesso com os familiares, Suellen, que hoje tem 20 anos, começou a ofertá-los na loja de roupas da sua avó, em Taguatinga. “Depois, criei uma conta no facebook e outra no Instagram para divulgar meus produtos para mais pessoas”. O retorno foi tão positivo que, hoje, a jovem empresária diz ser os sabonetes, sua única fonte de renda. “Agora que o comércio está voltando ao normal, estou expondo meus produtos em várias feiras populares de Brasília. Quase todo fim de semana estou em um lugar diferente”, conta, orgulhosa.